domingo, 24 de julho de 2016

Por que redesignei meu gênero?



Hoje, abordarei um assunto que causa bastante curiosidade entre amigos e familiares. Vou esclarecer com detalhes o porquê da minha opção em redesignar meu gênero.

Primeiramente, gostaria de corrigir um erro muito comum que vejo as pessoas cometendo quando se referem à homossexualidade de alguém, talvez, pela própria ignorância (falta de conhecimento) do significado da palavra “opção”.

opção
substantivo feminino
1. ato, faculdade ou efeito de optar; escolha, preferência.
2. p.met. aquilo por que se opta; uma de duas ou mais possibilidades pelas quais se pode optar; alternativa.

Por isso, acima comecei falando sobre a minha opção em redesignar o meu gênero, pois neste caso foi mera opção. Usar a palavra opção para se referir à sexualidade de alguém, está errado. O correto é orientação sexual (i.e.: os pais não têm nada a ver com a orientação sexual de seus filhos; portanto, a orientação sexual de Maria é problema exclusivamente dela).

Vamos começar fazendo uma análise, que lhe permitirá entender de forma muito mais fácil e prática porque não se trata de uma opção sexual.

Uma pessoa que nasceu com Síndrome de Down, cego ou com alguma paralisia tem a opção de ser diferente? Ou seja, ele pode escolher entre duas possibilidades (entre ser mongolóide ou ser sadio?). Existe essa opção na vida desse indivíduo? Acredito que a maioria sensata e com o mínimo possível de conhecimento dirá que não. Algumas subconscientemente preconceituosas, talvez, procuraram subterfujos para dizer que sim, embora a ciência confirme que não há possibilidade de escolha. A pessoa já nasce assim e ponto. É uma anomalia genética. O número de cromossomos presente nas células de uma pessoa normal é 46 (23 do pai e 23 da mãe), dispondo em pares, somando 23 pares. No caso da Síndrome de Down há um erro na distribuição e, ao invés de 46, as células recebem 47 cromossomos.

O que podem existir, talvez, sejam disfarces: a pessoa com Síndrome de Down pode fazer uma maquiagem para retirar a expressão facial determinante de tal síndrome, mas da mente e do corpo não haverão formas de disfarçar. A pessoa cega pode usar óculos e disfarçar a cegueira, embora os olhos continuem sem enxergar. Assim como um paralitico poderá utilizar muitos recursos disponíveis no mercado, mas continuaram sendo paralíticos.
Desta forma é a homossexualidade. Não quero dizer que seja algo genético, até mesmo porque muitos estudos já foram realizados e ainda não comprovaram absolutamente nada no ramo da genética, mas a pessoa já nasce com essa orientação. Assim como se nasce heterossexual. É algo que vai contra a vontade do ser humano. Vc já nasce assim e ponto final.

Como citei acima, existem também “n” formas de disfarçar essa orientação. Um indivíduo pode viver tranquilamente inserido na sociedade, sem que ela desconfie que o mesmo seja um homossexual. Eu mesmo conheço quatro, que vivem normalmente como se heterossexuais fossem.
Costumo usar o seguinte jargão: “Todos que parecem, são. Mas nem todos que são, parecem”. Muitos viverão ao seu lado e o seu radar não irá detectá-lo. Se bobear ainda irão se relacionar com vc ou alguém próximo e vc nunca irá perceber.
Resumindo: se o seu radar detectou no seu seio familiar, ou entre amigos, ou entre colegas de trabalho ou de estudos que uma pessoa parece ser homossexual, pode ter a plena certeza que esta pessoa é, muito embora ela mesma ainda não tenha se aceitado como tal e viverá uma batalha interior infinitamente infeliz, e, o pior, fará infelizes as pessoas ao seu redor, sejam seus companheiros, filhos, amigos e etc.
Pessoas infelizes não trazem felicidade para o convívio, seja ele qual for. 

Imagina a tamanha crueldade que é vc ser casado com uma pessoa anos a fio e em determinado momento da vida descobrir que seu cônjuge é homossexual? Deve ser uma piração, não acha? Saber que vc não conhecia a pessoa a qual dedicou toda uma vida. Vc se sentiria engando e traído, esses são os melhores sentimentos possíveis que vêm a minha mente, não quero nem pensar nos piores.

É o que costumo dizer: não precisa gostar de mim, mas sempre saberá quem eu sou.

E afinal, gente..., gay é igual fogão, toda família tem um e se ainda não tem, terá uma dia.

Ainda falando sobre opção. 
Vc não acha que seria muito mais fácil escolher ser heterossexual do que viver uma vida cheia de preconceitos, agressões gratuitas, chacotas, discriminações e etc? Ou vc acha que a pessoa gosta de viver a margem da sociedade e ser torturada a vida inteira apenas por ser diferente? Muita gente ainda se suicida por não suportar tamanha pressão.

Se pudesse ter escolhido, com certeza teria escolhido ser heterossexual. Hoje, talvez, teria uma família com alguns filhos, seria CEO de uma grande multinacional, estaria financeiramente muito bem, meus filhos já estariam se formando ou entrando para a universidade, não teria causado desgostos e desafetos aos meus familiares; e, com certeza, a trajetória da minha vida teria sido muito mais leve, aliás, infinitamente mais leve - penso eu.

Abro uns parênteses aqui para mencionar os desgostos e desafetos, meramente por entender as entre linhas quando alguém me diz algo querendo me magoar.

Uma certa vez, uma ente muito querida me disse a seguinte frase:

- Meu filho, vou levar o seu nome para a igreja para colocar na corrente de orações para vc sair dessa vida.

Ahan...??? Como assim, sair dessa vida? Sair dessa vida seria morrer? Talvez se fosse marginal, estivesse matando, roubando, estuprando, adoraria sim que ela me ajudasse nesse sentido, me tirando dessa vida e me mandando para o além. Mas não fiz mal a ninguém, por que me tirar dessa vida? 
Sei que o que ela queria dizer com “sair dessa vida” era pura e simplesmente que deixasse de ser homossexual.

Minha resposta educadamente para ela foi:

- Fulana, eu sou muito feliz assim. Se vc quiser levar meu nome para a igreja para orações, leve sim, mas ore para que eu seja a cada dia um ser humano melhor, que caminhe na honestidade, que seja íntegro, do bem, inteligente, esforçado, trabalhador, caridoso, que ame sempre a todos sem distinção, que respeite as pessoas como elas exatamente são e etc. Não ore para que eu seja infeliz.

Ela me deu sorriu sem graça e disse:

- Tá bom, meu filho!

Outro episódio foi de uma amiga crente que disse o seguinte:

- Amigo, isso não é coisa de Deus.

Kkkk... Como assim, não é coisa de Deus? Me admirei muito ela falar em nome de Deus. Deus não criou o mundo, não é amor, não é compaixão, não é onipresente, onipotente e etc. Então, como não seria coisa de Deus se foi ele quem me criou, segundo a religião dela?

Acho engraçado como uma pessoa se propõe a seguir uma religião apenas para ser um fantoche nas mãos dos outros.  Sempre que me propus a seguir uma religião, fui querendo estudá-la, entender os seus fundamentos e verdades e a qq sinal de divergência e incoerência, eu pulava fora. Afinal, não passei anos da minha vida estudando para seguir o que os outros querem que eu acredite. Quero acreditar naquilo que estudo e entendo, e não apenas no que está escrito em um pedaço de papel ou em coisas que alguém simplesmente me conta.

Respondi mais uma vez educadamente:

- Amiga, vc me desculpe. Mas eu acho então que a gente está orando para um Deus diferente. Olhe para a minha trajetória de vida e veja quão abençoada ela é.
Minha família biológica não teve condições de me criar, então deu a minha guarda para uma outra família, onde fui criado com amor, educação, respeito e princípios; estudei, me formei, me considero uma pessoa inteligente e sensata; tenho um bom emprego, onde consigo realizar todas as minhas formas de consumo; tenho minha casa própria, meu caro, viajo sempre que posso, esbanjo saúde; tenho poucos amigos, mas amigos verdadeiros. Olha que benção é a minha vida. Vc não acha que se não fosse coisa de Deus, minha trajetória teria sido bem diferente?

Ela sorriu sem graça e nunca mais tocou no assunto.

Vivi anos da minha vida em um mundo preconceituoso e o que mais tenho são argumentos para me defender.

Agora vc concorda comigo, que se eu tivesse tido a opção, teria escolhido se hetero? Seria muito fácil e menos doloroso ter de escutar certas coisas de gente ignorante e preconceituosa e ainda ter de viver dando explicações sobre minha vida.

Bom, se deixar eu escrevo o dia todo... rs...

Voltando ao assunto em epígrafe: O porquê da minha redesignação de gênero.

Agora sim, podemos falar em opção, escolher entre duas possibilidades, escolher ser homossexual (gay, bicha ou viado) ou escolher ser transexual (transgênero, travesti, traveca ou boneca). Portanto, ser travesti foi uma escolha minha.

Vamos começar entendendo o significado da palavra travesti. Muita gente ainda confunde e, pior ainda, erram na colocação do artigo definido (o, a, os, as), já que essa palavra atende aos dois gêneros.

travesti
substantivo de dois gêneros
1artista que, em espetáculos, se veste com roupas do sexo oposto.
2indivíduo que se veste e que se conduz como se fosse do sexo oposto.

Logo como atende aos dois gêneros o correto é:
Travesti feminino (indivíduo que nasceu no gênero masculino e que se conduz como gênero feminino) devem receber o artigo feminino (a, as). Exemplo: A travesti Claudia. E deve ser referida como ela.
Travesti masculino (gênero feminino que se conduz como gênero masculino) devem receber o artigo masculino (o, os). Exemplo: O travesti Tammy. E deve ser referido como ele.
Não é difícil, é? Com uma pouca dose de boa vontade, vc não ofenderá ninguém.

Acho muita ignorância (burrice, literalmente falando) e uma demonstração enorme de preconceito e crueldade  se referirem a transexuais da forma oposta as quais eles/elas se designam fisicamente. Não precisa ser muito inteligente, né? Se a pessoa mudou de gênero, é logico que ela quer ser tratada da nova forma adquirida, concorda? Mas entendo, respeito e tolero os poucos providos de massa encefálica, pq ser inteligente dói, é mais fácil ser burro e ignorante. Rs...

Poderia ter escolhido viver como um gay, mas escolhi fazer a redesignação para o gênero feminino. Simplificando, resolvi assumir para o meu corpo aquilo que a minha mente via no espelho e que os meus sentimentos me direcionavam.

Vivi anos presa em um corpo que minha mente não reconhecia. Muito estranho, né?
Sempre me questionava por que pagava por um crime que não havia cometido? Por que viver presa então?

Desta forma, resolvi procurar uma endocrinologista para fazer tal redesignação. E optei pelo uso de hormônios femininos (estrogênio) para que meu corpo pudesse tomar formas mais femininas e anti hormônio masculino (androgênio) para que as características masculinas fossem amenizadas. Diga-se de passagem, que essa batalha de hormônios dentro do meu corpo, me rendeu em 2012 uma Trombose Venosa Profunda – TVP (coagulação do sangue, formando trombos, o que poderia causar uma embolia pulmonar ou um aneurisma e me levar à morte). Portanto, desde então parei com o tratamento hormonal, mas como as formas mais primordiais já tinham se acentuadas, não houve problema em para o tratamento. Doravante, as correções que jugar necessárias serão somente através de cirurgia (coisa que ainda não julgo necessária. Talvez qdo o peitinho cair, faça alguma intervenção. Por enquanto está tudo ótimo e no lugar).

Devo lembrar que ser travesti não é ser mulher. Tenho plena consciência disto e jamais, em tempo algum, quero ser comparada como tal. Pois mesmo que faça a redesignação do meu órgão sexual, jamais serei uma mulher. Sabe por que? Porque nunca terei útero, ou seja, nunca poderei gerar um filho. Logo não me comparo a uma ou tenho pretensão em ser uma. Quero apenas ser respeitada como uma travesti e ponto.

O fato de ser travesti me gera uma libertada inigualável, pois não tenho nenhum compromisso com a sociedade, no tocante à moda e aos bons costumes. Não preciso ter as boas maneiras de uma donzela recatada, que precisar se comportar para se casar um dia; posso dar no primeiro encontro, pois jamais me sentirei ou serei tachada de puta; posso usar uma blusa de paetês em pleno dia ensolarado de verão; posso assumir várias personagens, lançando mão de perucas, apliques, turbantes e etc, não precisando ter a mesma cara os 365 dias do ano (nesse sentido as mulheres americanas e atrizes brasileiras estão a séculos na frente -  vide, Beyonce, Rihana e outras); não tenho TPM, sou grossa por natureza; e o melhor de tudo: posso ir à praia todos os dias do ano, sem ter de usar absorvente. Rs...

Bom, amores..., vou ficando por aqui.

Espero ter lhes esclarecido dúvidas e curiosidades a meu respeito.

Até o próximo domingo.

Beijinhos no coração.

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