quinta-feira, 28 de julho de 2011

Quando tudo começou (2º Post)

“Tudo começooou, há um tempo atrás, na Ilha do Sollll...”
Não lembro direito quando tudo realmente começou, só lembro, na verdade, quando me decidi em ser boneca.
Na minha infância, ainda menino, brincava de carrinho. Eram uns carrinhos (miniaturas) de ferro. Que, por sinal, adorava. Na época, passava um seriado de aventuras chamado “As Panteras” e a motorista do meu carrinho era sempre a personagem interpretada pela atriz Farrah Fawcett, aquela loura linda e sensual.
Morava em uma rua que só vivam parentes. Uma tia velha, que não tinha nada para fazer, costumava pintar as pedras da rua, desenhando casas, cogumelos e etc. Ao lado do meu portão, existia uma grande pedra que ela havia pintado uma casa de dois andares. Lembro que o estacionamento dos meus carrinhos era no teto da casa. Futurista já dede de pequena. Ali era o meu lugar predileto. Lugar onde mais gostava de brincar com meus carrinhos. Passava horas brincando, sem ninguém jamais imaginar que naquela simples e ingênua brincadeira de menino, já eram latentes os meus desejos mais íntimos. Nem eu mesma imaginava, alias não entendia nada. Mas brincava e amava ser uma das panteras. Na altura, eu devia ter uns 5/6 anos.
O tempo foi passando, colégio, amigos, família... Confesso que achava tudo muito estranho. Sentia-me um E.T. no meio de todos. Por que meus gostos eram diferentes? Não sabia explicar e nem me achava confortável para me abrir com alguém. Abrindo um parêntese: “Sou filha de criação e, na época, achava que se eles descobrissem que era diferente dos demais meninos, seria um motivo para me entregarem de volta para meus pais biológicos. Já os amava profundamente e em tempo algum suportaria a dor de viver longe deles.”
Achava as meninas sem graça, mas adorava brincar com elas. As coisas delas me encantavam: bonecas, borrachas, lápis coloridos, estojos todos decorados de gliteres, papeis de carta com cheirinho (sempre tive vontade de colecionar, mas não podia – não era coisa de menino). Por outro lado, achava os meninos engraçadinhos demais, me despertavam alguma coisa que não sabia explicar direito, só sabia que era uma sensação deliciosa; porém, não tinha saco pra brincar com eles (futebol, bolinha de gude, pique-pega – ai... achava tudo um saco). Vivia amores platônicos e inimagináveis com professores, amigos de classe, primos, amigos de ruas, amigos dos meus pais; enfim, sem entender já sabia que era diferente de alguma forma.
Os anos se passaram. Fui crescendo e cada vez mais o medo me assombrava. A primeira experiência sexual com meu primo foi aos 12 anos (ele tinhas 15 anos) e, também, o primeiro amor não correspondido. Ficamos nesse romance (da minha parte) velado por longos 4 anos. Sempre nos encontrávamos finais de semanas, férias, viagens e etc. tudo era motivo pra tomarmos banho juntos ou dormirmos no mesmo quarto, no intuito de que rolasse aquela sacanagem gostosa e inocente.
Lembro também que quando meus pais saiam, eu corria para o guarda-roupa da minha mãe. Vestia-me com sua saia, salto alto e sutiã. Passava batom e ficava horas em frente ao espelho, me deliciando com aquela visão. Girava, girava... ria..., me derretia em gargalhadas, depois me jogava sobre a cama exausta e ficava viajando em meus pensamentos, imaginando como seria maravilhoso se tudo fosse diferente.
Essa coisa de boneca já era latente desde muito nova, mas foi podada pelo medo e ali ficou adormecida até o Carnaval até 2008. Eu e mais 3 amigos resolvemos nos fantasiar de colegial e fomos brincar nas bandas do Rio de Janeiro. Nossa, foi o fervo! Naquele momento, percebi que tinha achado o que tanto procurava - minha identidade perdida na infância.
Vi que existia um público que eu amava – o heterossexuais que adovam bonequinhas. Fiquei louca. Só gato querendo me bolinar (rs...), me beijar... O assédio era uma loucura prazerosa. E foi então que decidi ser feliz! Já havia mostrado para todos quem eu era: uma pessoa honesta, do bem, ajuizada e etc. E, finalmente, chegava a hora de deixar sair de dentro de mim a mulher que há muito tempo havia sido enclausurada, amordaçada e presa aos grilhões de uma sociedade preconceituosa e demagoga.
Comecei a montar meu closet. No começo era tudo errado: roupas horrorosas e medonhas; a maquiagem toda “fusada”; o chuchu, as axilas e as pernas de caranguejo gritando - o demônio em pessoa. Mesmo assim a agenda era cheia. Várias gracinhas solteiras, noivas ou casadas me procuravam para momentos de prazer e glória. Percebi também, nesta época, que homem não tem muito critério na hora do tesão. Eles querem é gozar. Não importa se vc é gorda, vesga, se tem celulites ou estrias. Se vc o tratar com carinho e tiver uma boquinha macinha e quente e um buraquinho úmido para ele afogar o ganso, eles caem dentro e ainda lambem os beiços. Para vocês terem uma noção, certa vez falei pra um amigo: “Nossa, vocês são guerreiro, hein? ”A resposta da beldade pra mim foi: “Melhor dormir com a barriga cheia, do que com fome”. Ou seja, não dê para o seu namorado não, e ele vai se satisfizer com qualquer monstrinho que sorrir pra ele.
Hoje em dia, escolho os gatinhos que quero. Mas uma coisa me intriga. Às vezes, fico me perguntando se eu tenho cara de professora, porque o que aparece de curiosos querendo sair comigo (curiosos = homens que dizem nunca ter saído com bonecas, mas que estão dispostos a ter sua primeira experiência antes que seja tarde de mais.)
 “Eu vou ficar aqui até acabar a festa, se ela ainda não chegou, esperara por ela é o que me resta, nenhuma pessoa mais me interessa... Por isto, toquem a música bem alto e façam meu corpo dançar. Por isto, toquem a música alto, bem alto e façam o tempo passar.” 

Cenas do próximo capítulo:
“Nem tudo são flores.”

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